[Eduardo Chaves] [Multimídia: Conceituação, Aplicações e Tecnologia]

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2. Tecnologia Digital e Multimídia

 

Alguns têm usado as várias opções tecnológicas hoje (em maior ou menor grau) disponíveis para, em referência a elas, classificar os diferentes tipos de multimídia. Os autores de um artigo sobre o assunto -- artigo de certa forma pioneiro na imprensa não especializada -- apresentam três tipos de multimídia: sem vídeo (apenas com animação), com vídeo analógico gravado em disco ótico a laser e com vídeo digital [13] . Dizem eles:

"Os maiores nomes do setor de computação ... estão excitadíssimos acerca deste prospecto [de que o microcomputador possa se tornar uma ferramenta de multimídia] e estão ativamente promovendo multimídia como a nova fronteira na área de computação -- apesar de multimídia ser um conceito que não entendem direito e um recurso que nem sabem como comercializar. Para alguns, multimídia é apenas uma coreografia de texto, som e gráficos animados que permite criar efeitos cinemáticos relativamente grosseiros. Outros reservam o termo para sistemas que envolvem também players de vídeo-disco e mesmo de vídeo-teipe [14], e que, talvez, exibam o vídeo na tela do microcomputador. Ainda outros olham adiante, para sofisticados e caros sistemas que vão tratar informações consistindo de imagens de vídeo como qualquer outro tipo de dado digital, assim permitindo enorme flexibilidade na sua edição, manipulação e exibição." [15]

Apesar de ser correto o que afirmam os autores, não resta dúvida de que o terceiro tipo é o ideal na direção do qual se caminha, os dois primeiros não passando de estágios preliminares, dos quais o primeiro já foi quase que totalmente abandonado, exceto em produtos intencionalmente planejados como desenhos animados e em alguns materiais didáticos dirigidos a escolas pré-secundárias [16].

Dos meios de comunicação mencionados (som, fotografia, vídeo, animação, gráficos, textos), os três primeiros (som, fotografia e vídeo) já vêm sendo integrados há muito tempo, mesmo antes de se imaginar a possibilidade de sua digitalização. A integração de sons (principalmente a voz humana e fundos musicais) e fotografias (slides) permitiu a criação dos primeiros audiovisuais. A televisão, naturalmente, integrou som e imagens em pleno movimento de forma extremamente dinâmica e eficaz. O aparecimento e a popularização do vídeo cassete [17] completou o ciclo, permitindo que apresentações, sistemas instrucionais, publicidades e propagandas, etc., fizessem uso integrado desses três meios de comunicação (som, fotografia e vídeo), muito antes de se pensar em sua digitalização.

Faltava, porém, o elemento de interatividade. A integração desses três meios de comunicação com os recursos disponíveis no computador (animação, gráficos, textos) reflete, porém, evoluções mais recentes, que estão ainda em curso, devendo produzir resultados otimizados apenas nos próximos anos.

A digitalização dos componentes áudio, fotografia e vídeo já é problema resolvido, do ponto de vista técnico. O que precisa ser equacionado é o problema da compressão dos arquivos de sons e imagens digitalizados (principalmente os arquivos de imagens digitalizadas de vídeo em pleno movimento), que, em forma não comprimida, ocupam quantidade de espaço incompatível com a capacidade dos meios de armazenamento hoje disponíveis. Animações, gráficos e textos gerados por computador já são, como é sabido, digitalizados e não oferecem maiores problemas de armazenamento [18].

O que é preciso enfatizar é que, com a digitalização dos componentes áudio, fotografia e vídeo, o computador hoje manipula sons e imagens com a mesma facilidade com que manipula números, gráficos e textos, tornando-se, na verdade, uma máquina que processa números, textos, sons e imagens [19].

Correndo o risco de tentar esclarecer o que para muitos é óbvio, explico, em seguida, o que é a digitalização de sons e imagens (fotográficas ou de vídeo).

Atualmente sons podem ser armazenados de forma mecânica, magnética ou ótica. A forma de armazenamento mais tradicional tem sido a mecânica, através do uso de discos convencionais (dos quais os long-plays ainda são bastante usados). Mais recentemente popularizou-se o uso de fitas magnéticas para armazená-los (principalmente fitas cassetes). Apenas por volta de 1984 começaram a ser usados meios de armazenamento óticos (os discos compactos a laser, acerca dos quais mais se dirá adiante).

No caso de disco convencional e de fita magnética, os sulcos do disco ou as marcas magnéticas da fita representam, diretamente, os sons que ouvimos. Equipamentos destinados a reproduzir sons (toca-discos e tape decks) lêem esses sulcos ou essas marcas e os traduzem nas ondas sonoras perceptíveis pelos nossos ouvidos.

No caso de disco compacto ótico a laser, as marcas gravadas na superfície do disco (minúsculos buracos feitos por um raio laser) não representam, diretamente, os sons que ouvimos: representam apenas números -- os dígitos numéricos binários 0 e 1. São esses números que, por sua vez, representam, em suas muitas combinações, os vários sons. O equipamento destinado a reproduzir os sons (o toca-discos) precisa ter, neste caso, um microprocessador que lê e decodifica as informações numéricas gravadas no disco, transformando-as em ondas sonoras perceptíveis pelos nossos ouvidos. Esse equipamento é, na verdade, um microcomputador disfarçado [20].

Imagens têm sido, tradicionalmente, armazenadas em filmes. Todavia, mais recentemente, seu armazenamento tem sido feito também em fitas magnéticas (fitas cassetes de vídeo) e em discos óticos a laser (vídeo-discos ou discos compactos).

O armazenamento de imagens em filme é, de certa forma, explícito: se olharmos um filme revelado, veremos o que está nele armazenado. Tanto isso é assim que o conteúdo de um filme cinematográfico é diretamente projetado na tela, através de um foco de luz. O projetor de filme é uma máquina relativamente simples: ele não necessita traduzir ou decodificar sinais complexos para transpor para a tela as imagens contidas no filme: ele simplesmente as projeta.

No caso de imagens armazenadas em fita magnética, não há semelhança, do ponto de vista visual, entre o que está na fita e o que aparece na tela de um aparelho de televisão ou de um monitor de vídeo. Se olharmos a fita, nada veremos. O que está armazenado nela não passa de marcas magnéticas que, de uma forma não explícita, representam as imagens originais. Só um equipamento especial consegue ler e traduzir essas marcas, transformando-as em imagens na tela.

No caso de imagens armazenadas em vídeo-disco ótico a laser, o armazenamento se dá através de marcas (na verdade, pequenos buracos) queimadas na superfície do disco. Se olharmos o disco, poderemos distinguir as partes gravadas das não gravadas, mas não veremos nada além disso. Na forma de gravação hoje usada para esse tipo de disco, essas marcas representam as imagens originais (e não números). Um equipamento especial consegue ler e traduzir as marcas, transformando-as em imagens [21].

No caso de imagens armazenadas em disco compacto ótico a laser, o armazenamento também se dá através de marcas (na verdade, pequenos buracos) queimadas na superfície do disco, como no caso anterior. Só que, neste caso, as marcas representam apenas números -- os dígitos numéricos binários 0 e 1. São esses números que, por sua vez, representam, em suas várias combinações, as imagens originais. O equipamento destinado a reproduzir essas imagens precisa ter, neste caso, um microprocessador que lê e decodifica as informações numéricas gravadas no disco, transformando-as em imagens que serão exibidas na tela de um aparelho de televisão, de um monitor de vídeo, ou de um microcomputador. Esse equipamento é, na verdade, um microcomputador, mais ou menos disfarçado [22].

As modalidades de armazenamento em que sons ou imagens são representados por números -- na verdade, pelos dígitos binários 0 e 1 -- são chamadas de digitais. Por contraste, as outras modalidades de armazenamento são chamadas de analógicas (embora, stricto sensu, apenas no caso de filmes o termo "analógico" seja, de certa forma, apropriado).

Quando sons e imagens são armazenados digitalmente, portanto, o que é gravado no disco, magnético ou ótico, ou na fita magnética, são sinais discretos que representam apenas os dígitos 0 e 1 do sistema numérico binário. Isso significa que sons e imagens são armazenados na mesma forma que números, textos, gráficos e programas de computador [23], e podem ser manipulados com igual facilidade. É apenas quando de sua leitura e decodificação, por um computador ou por um microprocessador embutido em um aparelho de reprodução de sons ou de imagens, que esses dígitos binários acabam produzindo sons ou imagens, em vez de números decimais, textos ou gráficos na tela do computador.

A digitalização do som é hoje a regra, no contexto da produção musical [24]. A digitalização da fotografia estática ou parada também é praticada hoje, mas não muito comum, fora de contextos altamente profissionais [25]. A digitalização de imagens de vídeo também está totalmente equacionada hoje, do ponto de vista técnico, restando apenas o problema da compressão dos arquivos, que hoje consomem excessivo espaço de armazenamento [26].

Uma vez digitalizados o som, a fotografia e o vídeo, eles podem ser gravados em um mesmo meio de armazenamento (digamos, um disco compacto ótico) e reproduzidos (ouvidos e vistos) através um computador com tela colorida de alta resolução e com drive destinado a esse tipo de disco. Alternativamente, podem ser reproduzidos através de um toca-discos apropriado, munido de microprocessador, conectado a um amplificador e a um aparelho de televisão ou monitor de vídeo.

Mas o mais importante fruto da digitalização do som e da imagem, estática ou em movimento, não está no fato de que som e imagem podem ser armazenados em um mesmo meio de armazenamento que números, dados textuais, gráficos e programas de computador, mas sim no fato de que o computador pode manipulá-los com a mesma facilidade com que processa números e textos. É esse fato que permite a interatividade, sem a qual não haveria multimídia.

Se fizermos uma breve recapitulação histórica, veremos que, na verdade, o computador foi criado, originalmente, para manipular apenas números: para fazer cálculos complexos, como os exigidos para determinar trajetórias balísticas. Subseqüentemente, passou a manipular informações textuais, depois de convertê-las, internamente, em dígitos numéricos binários. Com a digitalização do som e da imagem, estática ou em movimento, o computador passou a manipular, com a mesma facilidade, informações numéricas, textuais, sonoras e visuais. Essa a grande (r)evolução: é uma evolução, mas uma daquelas evoluções em que uma pequena mudança quantitativa acaba produzindo uma mudança qualitativa, equivalente a uma revolução [27].

É oportuno mencionar que multimídia, como caracterizada aqui, só teve condições de aparecer no momento em que as tecnologias de edição e impressão de textos, de gravação e transmissão de sons e vozes, de gravação e transmissão de imagens, de telecomunicações e de processamento de dados alcançaram a fase da eletrônica digital. Essas tecnologias atravessaram uma fase mecânica, e, posteriormente, uma fase elétrica, nas quais pouca coisa tinham em comum. Foi só ao alcançar a fase digital que se aproximaram e estão se integrando. E o computador, máquina digital por excelência, está no centro de todas elas.

É a esse conjunto de tecnologias, envolvendo mídias que apelam a mais de um sentido de uma só vez, operando de maneira integrada, intuitiva e interativa, sob a coordenação do computador, que o termo "multimídia" é, hoje, normalmente, aplicado [28].

 

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NOTAS

12. Cf. Don Steinberg, "Multimedia is the Message", in PC Computing, Vol.3, Nº 9, September 1990, p.136.

13. A diferença entre som, fotografia e vídeo analógico e som, fotografia e vídeo digital será explicada adiante.

14. O Aurélio inclui o verbete "vídeo-teipe" (acentuado e com hífen), mas não inclui "vídeo-disco", muito menos "vídeo-gueime". Vou usar o termo "vídeo-disco" (acentuado e com hífen, por analogia com "vídeo-teipe"), que me parece natural, mas não ouso usar "vídeo-gueime", que me parece horrível, preferindo, neste caso, "vídeo-jogo" ao híbrido "vídeo-game". No caso de palavras e expressões estrangeiras que não se traduzem bem para o português, como "player", vou usá-las no original, sem cerimônia, dispensando, na maior parte das vezes, aspas ou itálico. Quando, porém, o sentido de um termo, como "player", é claro, traduzo-o (por "toca-discos", no caso).

15. Maria Shao e Richard Brandt, "It's a PC, It's a TV -- It's Multimedia", in Business Week, Edição Internacional, October 9, 1989, pp.38-39. Essa classificação de multimídia será refinada no terceiro capítulo. Ali eu divido o segundo tipo de multimídia aqui mencionado em dois.

16. Aquelas que os americanos designam como "K to 8", isto é, do Jardim da Infância ("K", de "Kindergarten") a 8ª série. A expressão "K to 12" se refere a classes desde o Jardim da Infância até o final do 2º Grau.

17. A terminologia nesta área é complicada. O Aurélio menciona "cassete", esclarecendo que o termo pode ser usado como substantivo e como adjetivo. Neste caso, não é precedido de hífen e deve concordar em número com o substantivo (o certo sendo "gravador cassete", "fitas cassetes", etc.). Estou, portanto, considerando a expressão "vídeo cassete" (com o "i" acentuado, sem hífen, e com um só "t") como expressão já pertencente, nesta forma aportuguesada, à nossa língua. Vou usá-la em vez da expressão em inglês "video cassette" (sem acento e com "t" duplo), exceto quando estiver falando em "Video Cassette Recorder" (VCR), por exemplo, onde a expressão se insere dentro de outra, usada comumente em inglês. Como já indicado, vou também usar, como se já estivessem aportuguesadas, e, portanto, sem aspas, itálico, ou sinais equivalentes, expressões como Videodisc Player, CD-DA Player, CD-ROM Player, CD-ROM Drive, etc., porque acho canhestras as expressões que pretendem traduzi-las, como "Toca-Discos de Vídeo", "Toca-Discos de CD-DA", "Toca-Discos de CD-ROM", "Acionador de CD-ROM", etc.. Reconheço, porém, que a expressão "Toca-Discos a Laser", ou meramente "Toca-Discos Laser", para se referir ao CD-DA Player, está se impondo no português, à medida que o equipamento vai se popularizando.

18. Esta questão será tratada em mais detalhe no terceiro capítulo, onde se discute a tecnologia necessária para multimídia.

19. Cf. Robin Raskin, "Multimedia: The Next Frontier for Business?", op.cit., pp.151-192.

20. Esses discos serão discutidos no Capítulo III, Seção 4.

21. Esses discos serão discutidos em detalhe no Capítulo III, Seção 3.

22. Esses discos serão discutidos em detalhe no Capítulo III, Seção 4.

23. Textos são processados e armazenados pelo computador também na forma de números, cada caractere alfabético ou sinal especial sendo representado por um número de até oito dígitos binários, ou de até oito bits ou um byte. É por isso que geralmente se diz que um byte é o espaço da memória do computador necessário para armazenar um caractere alfabético ou sinal especial. Gráficos de computador também são armazenados na forma de números, cada ponto do gráfico sendo representado por um ou mais bits. Em princípio, um bit seria suficiente para representar um ponto do gráfico. Mas como os gráficos são freqüentemente coloridos, mais bits são necessários para armazenar a informação relativa à cor de cada ponto.

24. Os "Compact Discs", ou CDs, armazenam o som em forma digital, não em forma analógica. A maior parte desses discos traz três letras no rótulo: "AAD", "ADD", ou "DDD". Um disco que traz as letras "AAD" foi originalmente gravado, geralmente em fita, em forma analógica, não sofreu qualquer processamento digital, tendo apenas sido convertido para digital para armazenamento em disco compacto. Um disco que traz as letras "ADD", apesar de originalmente gravado, geralmente em fita, em forma analógica, recebeu algum processamento, depois de digitalizado e antes de ser armazenado em disco compacto. Um disco que traz as letras "DDD" foi gravado em fita já em forma digital, o som gravado foi processado digitalmente, e, posteriormente, gravado no disco, também em forma digital. Apresenta, por isso, melhor qualidade.

25. A digitalização de fotos em contextos profissionais já tem levantado problemas éticos e jurídicos, pois as fotos podem ser manipuladas sem deixar vestígios. A questão será discutida no final do segundo capítulo.

26. Esta questão será tratada em detalhe no terceiro capítulo, onde se discute a tecnologia necessária para multimídia.

27. Dependendo do ponto de vista que se queira defender, pode-se enfatizar seja o aspecto evolucionário, seja o revolucionário, dessa tecnologia. A revista MacUser, em número dedicado a multimídia, sublinha o seu caráter evolucionário: "Multimedia is not a revolution -- it's an evolution. The multimedia evolution is bringing together a huge variety of hardware and software tools with a common goal: using the Macintosh [sic; os usuários do Macintosh parecem ignorar que existam outros tipos de microcomputador] in ways that involve the human senses -- especially sight and hearing -- and give users the sense of interactive control over the computer. Multimedia simply means using several communications sources simultaneously" (February 1991, p.105, ou p.1 do encarte "Buyer's Guide"). O autor (não identificado) não dá a devida ênfase ao fato de que, às vezes, uma pequena mudança evolucionária é a gota que enche o copo e produz uma revolução. No caso, a digitalização (com a conseqüente integração) dos vários meios de comunicação que integram multimídia pode ser essa gota.

28. Cf. Richard Paske, "Hypermedia: A Brief History and Progress Report - Part 1", in T.H.E. Journal: Technological Horizons in Education, Vol.18, Nº 1, August 1990, pp.53-54, para uma boa discussão dos termos "multimídia", "hipermídia", "vídeo interativo", etc.. As variantes mais populares de plataformas de multimídia, voltadas para o consumo de massa, deverão dispensar a conexão com um computador independente, embutindo os circuitos eletrônicos necessários no toca-discos.

 

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Last revised: 04 mai 1999