A Memória Curta dos Brasileiros
Nesta página estaremos colocando lembretes e referências sobre assuntos que causaram grande celeuma quando aparerecam mas que hoje estão devidamente esquecidos. Dizem, por isso, que brasileiro tem memória curta.
Inicio, porém, com um artigo meu, escrito um pouco em tom de provocação, em que indago se é tão ruim assim ter memória curta.
Contribuições para eduardo@chaves.com.br.
A Memória Curta dos Brasileiros
Eduardo O C Chaves
Dizem que brasileiro tem memória curta e isto freqüentemente é apresentado e tomado como uma crítica de nossa cultura.
Imagino que o oposto da memória curta dos brasileiros é a memória longa dos sérvios, croatas, bósnios, hezergovinos, montenegrinos, macedônios, albaneses, kossovares e outros que habitam os Bálcãs. Esses povos guardam em sua memória acontecimentos que tiveram lugar há centenas de anos e que até hoje são invocados para justificar guerras de vingança. Sua memória é longa esses povos não esquecem fácil. Parece que a única forma de fazer com que esses povos não briguem entre si é colocando sobre eles um governo autoritário, se não ditatorial, como o do Marechal Tito, que durante quase meia centena de anos conseguiu manter a paz na antiga Iugoslávia, agora implodida vários países e não sei quantos pretendentes a países. As guerras entres esses países e aspirantes a países já foram tantas que o termo "balcanização" entrou em nosso vocabulário significando tribalização, divisão em pequenas tribos.
Comparada com essa memória longa, a memória curta do brasileiro parece mais virtude do que defeito.
Na verdade, num território de proporções continentais como o brasileiro, e principalmente quando se levam em conta a nossa pluralidade étnicas e diversidade cultural original, bem como o número de grupos de imigrantes que a partir do final do século passado fizeram do Brasil a sua terra, é algo próximo de um milagre que tenhamos preservado até aqui nossa unidade nacional.
O que vemos, hoje, no mundo, porém, são tendências de certo modo incompatíveis com a manutenção de grandes complexos nacionais como o Brasil.
De um lado, temos um movimento forte na direção da globalização (cultural, comercial, industrial, financeira), que é um movimento supranacional. Em todos os cantos do mundo nações-estado se agrupam para formar blocos supranacionais: a Comunidade Européia, o Nafta, o Mercosul. A globalização, na maior parte desses casos, começou no setor comercial (a Comunidade Européia se chamava, até há pouco, "Mercado Comum Europeu"), mas hoje se estende, também, no caso europeu, para o setor político, com parlamento e outras instituições políticas supranacionais, passaporte comum, livre trânsito dos cidadãos, etc.. No setor econômico a globalização evoluiu, no caso europeu, do nível de um mercado livre para o de uma moeda comum. No plano cultural a globalização transcende essas iniciativas regionais, para cobrir virtualmente o mundo inteiro, que lê os mesmos livros, assiste aos mesmos filmes, vê os mesmos programas de televisão, canta as mesmas músicas, usa o mesmo tipo de roupa. Os supermercados e os shopping centers do mundo têm todos a mesma cara (e, segundo Domenico De Masi, até o mesmo cheiro). Se o Inglês já era falado em quase todos os países do mundo, na comunidade cultural e empresarial, com a Internet está se tornando verdadeira língua franca de todos.
De outro lado, porém, estamos vendo reacenderem-se movimentos étnicos separatistas de cunho tribal, como os já mencionados nos Bálcãs e outros, como os dos bascos e os catalães, na Espanha, os dos bretões e os gauleses, na França, os dos habitantes de Quebec, no Canadá, para não mencionar outros, menos conhecidos, no México, na Austrália e em quase todo país que possua pluralidade étnica significativa. Cada um desses movimentos enfatiza sua cultura tradicional, promovendo, ou procurando fazer reviver, sua língua, etc.
Mesmo dentro dos Estados Unidos, cuja sociedade que era conhecida como "the melting pot" ("o caldeirão em que tudo se derrete"), cujo estado tem como moto "E pluribus unum" ("A partir de vários, um", ou "Unidade a partir da Diversidade"), que se proclamava "One Nation Indivisible under God" ("uma nação indivisível sob Deus"), e que procurava exportar a sua "American Way of Life" ("Modo de Vida Americano"), o que se vê hoje é a balcanização do que um dia foi uma cultura só, que os locais procuravam transmitir aos recém-chegados e estes voluntariamente assimilavam. Ninguém mais nos Estados Unidos parece ser simplesmente americano, mas sim afro-americano, hispano-americano (categoria que abrange o mexicano-americano, o cubano-americano, para mencionar apenas as subcategorias mais importantes), ásiatico-americano, irlandês-americano, nativo-americano, etc. Como se não bastasse a ênfase na divisionismo étnica, há outros eixos de potencial divisão: certamente raça (que mantém com etnia uma estreita relação), sexo (freqüentemente chamado de "gênero", para ressaltar que a base da distinção é política e não biológica), orientação sexual (homo [gays, lésbicas, e simpatizantes] e hétero [os demais, o termo que os designa sendo às vezes usado quase como se fosse pejorativo], etc.. Ao mesmo tempo em que cresce a ênfase nas diferenças e na diversidade, a população se torna extremamente sensível, sentido-se subjetivamente ofendida com qualquer coisa que se diga. A linguagem, em vez de ser um veículo de comunicação, virou uma arma com a qual se ofende sensibilidades exacerbadas: a cada momento se encontram acusações de linguagem preconceituosa, eurocêntrica, xenófoba, racista, sexista, homófoba, etc. Nas escolas, retira-se do currículo, por exemplo, Sheakespeare, que se afirma estar no currículo apenas porque era homem, europeu, branco, morto, e, presume-se, hetero-sexual, e se introduz-se Rigoberta Manchu, que presumivelmente é o negativo de Sheakespeare nos aspectos indicados. (Não se comenta que Sheakespeare está no currículo porque ele é um escritor fenomenal, que há quase quatro séculos consegue falar a milhões de pessoas, e que Rigoberta Manchu é o oposto dele também nesse aspecto...).
O Brasil, felizmente, é mais globalizante do que balcânico: está seriamente envolvido com outros país do sul do continente na tentativa de fazer funcionar o Mercosul, em geral não é xenófobo e aceita de bom grado idéias, tecnologias, produtos, etc. oriundos de outros países e regiões, e, por causa disso, tem conseguido ficar livre de movimentos separatistas de cunho tribal ou mesmo meramente regionalista. Apenas um fraco movimento separatista apareceu no Rio Grande do Sul, propondo-se criar a República dos Pampas (ou de Farroupilha): embora distintamente regional, falta-lhe um cunho étnico coerente. O gaúcho possui forte tradição local, mas há na região diversos grupos de imigrantes, entre os quais se destacam os alemães e os italianos, que enfraquecem as pretensões do gaúcho.
A esquerda acadêmica brasileira, que em geral tem um discurso nacionalista (exceto quando se fala em socialismo), vem se esforçando para importar dos Estados Unidos alguns dos problemas de lá. Já se ouve falar, em nossas universidades, acerca da necessidade de corrigir nossa linguagem racista, sexista, e homofóbica, etc. Ao se criticar esse procedimento da esquerda acadêmica, não se nega a existência de preconceito racial, contra as mulheres, ou contra os homossexuais. O que se nega é que esse preconceito se expresse principalmente através da linguagem. Reformar a linguagem na direção de uma expressão politicamente correta não vai diminuir o preconceito, apenas (na melhor das hipóteses) uma das formas em que pode ser expresso e não a mais importante. Ao se dizer, por exemplo, que "a situação está preta", ou que "fulano ficou vermelho de raiva", ou "sicrano ficou amarelo de vergonha", ou que "beltrano foi judiado", não se expressa preconceito racial ou étnico. Em alguns desses casos, mesmo que tenha havido conotações étnico-raciais no surgimento das expressões, elas já foram devidamente transcendidas e esquecidas mais um sinal de que a memória, ou melhor, o esquecimento do brasileiro, lhe serve bem.
ALGUNS CONTROVÉRSIAS E ESCÂNDALOS ESQUECIDOS
ALGUNS ESCÂNDALOS QUE PODERÃO ESTAR LOGO ESQUECIDOS (se a gente deixar!)
As Propinas para os Fiscais da Prefeitura de São Paulo
Ajude a tornar esta lista tão completa e atualizada quanto possível.