Raquel Almeida de Moraes, Do EDUCOM à Universidade Virtual. A Evolução da Informática na Educação no Brasil


[Palestra ministrada no dia 27/5/2000 no Educador 2000 -- Congresso Internacional de Educação]

 

Introdução.

O ano 2000 é, oficialmente, o vigésimo da informática na educação no Brasil. Ela teve início com a criação, pela Secretaria Especial de Informática - SEI, da Comissão Especial n ° 01: Informática na Educação : CE-IE, em 1980. Nos anos seguintes, 1981 e 1982, foram realizados o Primeiro e o Segundo Seminário de Informática na Educação, respectivamente em Brasília e Bahia, do qual surgiu o Projeto EDUCOM em 1983. Depois os projetos foram se sucedendo à medida que eram substituídos os ministros da Educação. Este verbete fará uma breve síntese dessa história, para culminar com a questão da Educação a Distância e das Universidades Virtuais, que se tornou o grande foco de atenção nos últimos dois anos. Atenção especial será dada à experiência da Universidade de Brasília, que desde os anos 80 vem contemplando a criação de uma Universidade Aberta e agora tem sua Universidade Virtual. A seguir, tratará da criação da Universidade Virtual Pública do Brasil (UNIREDE) e de outros acontecimentos recentes na área culminando com uma reflexão das possibilidades de a Educação a Distância contribuir na construção de uma sociedade democrática.


Informática e Educação: Fundamentos filosófico-histórico-sociais.

"embora exista um paradigma tecnológico, há um número muito grande de possíveis trajetórias tecnológicas, e isso depende da sociedade em que estamos. "

"O átomo, o computador, os satélites, "servem antes de tudo para fazer a guerra." Tal faculdade, porém, está reservada ao clube dos ricos."

"entre aqueles que possuem informações pertinentes sobre diversas esferas de vida social e aqueles que estarão privados destas em razão de leis relativas a segredos oficiais. Um grande perigo e um problema difícil".

"o esforço da educação no sentido de formar indivíduos livres, seguros e responsáveis, capazes de pensar por conta própria, será necessariamente maior e mais difícil no futuro do que já tem sido."


A Política de Informática na Educação Brasileira.

1. Dados gerais.


Principais momentos dessa política
:

Primórdios:

Implantação - orientação nacionalista/estratégica

Transição política: Nova República


Impactos das Novas Tenologias na Formação Humana:

Bill Gates (1995, p. 316), proprietário da empresa Microsoft, em seu livro: A Estrada do futuro, salienta que a capacidade para a inovação será muito importante para que sejam superadas as desigualdades sociais e culturais entre classes e povos. Em suas palavras: "A educação não é a resposta total para todos os desafios criados pela Era da Informação, mas é parte da resposta, da mesma maneira que a educação é parte da resposta para uma gama dos problemas da sociedade."(...) "A educação é o grande nivelador da sociedade, e toda melhoria na educação é uma grande contribuição para equalizar as oportunidades."

Mas, para isso, seria necessário que a formação humana fosse propiciada não só em bases mais amplas - abrangendo a totalidade da população - como também se traduzisse numa política educacional propícia ao desenvolvimento da autonomia e da participação, e não reprodutora, memórica e servil como tem sido a educação brasileira e internacional ao longo dos séculos.

Mesmo no atual modelo pós-fordista há limites, pois a polivalência, a multitarefa, a tomada de decisões, o trabalho em equipe, o CCQ, a produção simplificada e "on line", a gerência "participativa", entre outros, ainda têm como pressuposto o monopólio do mercado e da produção por uma minoria.

Por sua vez, a esquerda com Gramsci (1991, p. 124-125) propõe a organização de uma nova cultura a partir da formação de diferentes gerações de intelectuais pela escola, destacando que: "Descobrir por si mesmo uma verdade, sem sugestões e ajudas exteriores, é criação (mesmo que a verdade seja velha) e demonstra a posse do método; indica que, de qualquer modo, entrou-se na fase da maturidade intelectual na qual se pode descobrir verdades novas. Por isso, nesta fase, a atividade escolar fundamental se desenvolverá nos seminários, nas bibliotecas, nos laboratórios experimentais; é nela que serão recolhidas as indicações orgânicas para a orientação profissional.

Contudo, a escola unitária, pública, gratuita e obrigatória, com qualidade, parece estar cada vez mais longe de constituir uma realidade para a maioria da população. Frente à realidade atual, Gentili (1995, p. 224) desenvolve a hipótese de que (...)" o neoliberalismo ataca a escola pública a partir de uma série de estratégias privatizantes, mediante a aplicação de uma política de descentralização autoritária e, ao mesmo tempo, mediante uma política de reforma cultural que pretende apagar do horizonte ideológico de nossas sociedades a possibilidade mesma de uma educação democrática, pública e de qualidade para as maiorias. Uma política de reforma cultural que, em suma, pretende negar e dissolver a existência mesma do direito à educação. "

E essas reformas culturais vêm ocorrendo, sobretudo, na esfera da requalificação do trabalho com as novas tecnologias, tendo por objetivo a realização de uma modernização conservadora que acaba por exacerbar a relação escola-trabalho e a qualidade como propriedade, o que nesta era de desemprego tecnológico constitui-se numa " educação para as minorias".

A distância cultural entre povos e classes já começa a se tornar um fenômeno reconhecido até por organismos internacionais como a UNESCO. Na sua edição de abril de 1995, o Correio da UNESCO, através de Armand Mattelart (1995, p. 12), alertava que: "A globalização não é incompatível com o crescimento das disparidades. Trata-se, antes, das duas faces de uma mesma realidade".

De acordo com o que reflete Hobsbawn (1995, p 562): (...) "Não sabemos para onde estamos indo (...) Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão".

Entretanto, não somos pessimistas nem catostrofistas na nossa análise da história. Concordamos com Manuel Castells (1999, p. 437) de que:

(....)"O sonho do Iluminismo está a nosso alcance. Todavia, há enorme defasagem entre nosso desenvolvimento tecnológico e o subdesenvolvimento social. Nossa economia, sociedade e cultura são construídas com base em interesses, valores, instituições e sistemas de representação que, em termos gerais, limitam a criatividade coletiva, confiscam a tecnologia da informação e desviam nossa energia para o confronto autodestrutivo. Essa situação não é definitiva. Não há mal eterno na natureza humana. Não existe nada que não possa ser mudado por ação social consciente e intencional, munida de informação e apoiada na legitimidade".

Portanto, somos favoráveis à possibilidade urgente e necessária de uma educação tecnológica informática de base, com sólidos conhecimentos científicos e valores éticos, onde as diferentes culturas sejam respeitadas e a solidariedade e a justiça entre os povos levem à superação do egoísmo humano.


Do EDUCOM à Universidade Virtual.

Os educadores envolvidos com o Projeto EDUCOM alimentavam um sonho: construir uma nova sociedade, e, para isso, apostavam na informática na educação, pois a Linguagem de programação Logo, faziam-nos rever a sua postura autoritária, memórica, conservadora, para uma postura onde o compartilhar, o construir, o aprender com o erro fosse o princípio pedagógico orientador.

E hoje, com a Universidade Virtual, esse sonho continua. Outros autores vêm se somar ao Papert: Pierre Lèvy (1994), por exemplo, entre outros, têm a esperança de que com a educação seja possível a criação de uma nova cultura. E, para isso, têm na informática não uma tábua de salvação. Mas uma oportunidade de construir uma tecnodemocracia:

"A técnica em geral não é boa, nem má, nem neutra, nem necessária, nem invencível. É uma dimensão, recortada pela mente, de um devir heterogêneo e complexo na cidade do mundo. Quanto mais reconhecermos isto, mais nos aproximaremos do evento de uma tecnodemocracia" (LÈVY, 1994, p. 203).

A experiência da UnB com a Educação a Distância vem desde os anos setenta, com o convênio que ela fez com a Open University.

Mas foi só nos anos oitenta, em 1989, que a EaD se firmou com a criação do CEAD: Centro de Educação Aberta, Continuada e a Distância, envolvendo os professores que trabalhavam na Faculdade de Educação com a temática, incluindo os da área tecnológica, tanto da FE como de outros departamentos e a Editora da UnB.

Na década de noventa, a EaD na UnB toma novo impulso com a realização, em setembro de 1994, do I Seminário Internacional sobre As Novas Tecnologias na Educação e na Educação Continuada: A Educação sem Distância para o século XXI. Os promotores foram a Faculdade de Educação da UnB, o Consórcio Interuniversitário de Educação Continuada e à Distância e o Ministério da Educação e do Desporto/MEC-SESU.

Esta mesma faculdade já abrigava, desde março de 1994, o I Curso de Especialização em Educação Continuada e a Distância, com professores da casa e um professor visitante: Dr. Ubiratan D’Ambrósio, da Unicamp.

Em 1998 a EaD da UnB lança mais um projeto: a Universidade do Centro-Oeste - Univir-CO, um consórcio envolvendo as universidades públicas da região, com sede na UnB, que já tinha criado, neste mesmo ano, a UnB-Virtual.

A experiência com a Universidade Virtual tem sido um desafio. Em 1999, três professores ousamos colocar uma disciplina na formação básica dos futuros educadores na Internet (Organização da Educação Brasileira – OEB e Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1 e 2 graus, de conteúdo similar ), e fomos crescendo e nos desenvolvendo juntos: tanto a equipe técnica, que implementava o desktop dos alunos, o fórum, o chat, a lista de discussão como nós enquanto parte docente, que ensinávamos e construíamos uma pedagogia on line, cada qual dentro da sua filosofia educacional .

Isto é fundamental nessa experiência: a liberdade para criarmos o tipo de estilo de aprendizagem que mais se aproxima dos nossos ideais. Um ano depois de criada a Universidade Virtual na UnB e da Universidade Virtual do Centro-Oeste, a 6 de janeiro de 2000 foi criada a Universidade Virtual Pública do Brasil/UNIREDE, e com lançamento oficial no Congresso Nacional, em 24 de fevereiro de 2.000, no Auditório Petrônio Portela.

A UniRed, sua sigla, nasceu com a finalidade de oferecer, por meio da implantação de infovias e mídias integradas, um conjunto de aplicações estratégicas especialmente voltadas para um Programa de Recuperação do Ensino Superior Público pelas instituições signatárias, disseminando educação assistida por meios interativos através da Internet, vídeoconferência e outras mídias educacionais.

A UniRede é constituída por um consórcio de, inicialmente, 33 universidades públicas, federais e estaduais, para a produção em parcerias que possam aproveitar o melhor do potencial destas universidades e que atendam à demanda por ensino superior público deste país, tanto em nível de Graduação, Pós-Graduação, Extensão ou Educação Continuada.

A Universidade Virtual Pública do Brasil/UNIREDE foi formada a partir da adesão das seguintes universidades: UnB, UFRJ, UFF, UFMG, UFPel, UFRGS, UFPA, UFPB, UFJF, UFSC, UFPE, UFBA, UFG, UFMS, UNIR, UFSM, UFA, UFPR, UFMA, UFOP, UFU, UFRN, URG, UFES, UFSCar, EFEI, UNIVALE, UNIRIO, UERN, UEMS, UNEMAT, UEG e CEFET-RJ.

O modelo operativo é de um consórcio-rede entre universidades públicas (UNIREDE), associado a uma Fundação própria, de direito privado (FUNREDE), com sede e foro em Brasília, encarregada da gestão financeira. A UniRede disporia de um Comitê Gestor e um Conselho Consultivo, além de Comitês de Assessoria ad hoc para avaliar as propostas de projetos.

Somos de opinião que o sistema virtual na educação a distância é muito interessante e bastante flexível, pois, em nossa metodologia de trabalho, a freqüência é computada por tarefa realizada. Contudo, o toque e o afeto também são muito importantes no processo de aprendizado, daí que em minha experiência com a internet na educação a presença também faz-se necessária e é prevista no cronograma.

A Educação a Distância pode propiciar a aprendizagem e veicular mais informações, base do processo decisório que está por detrás de qualquer ação humana. A democracia não se constrói apenas com eleição. Requer, também, participação direta, e a Internet pode contribuir para isso. E a educação tem um papel muito importante a cumprir: contribuir para a edificação da cidadania, que, em grego, significa "o que participa da cidade". Ou seja: faz política.


Conclusão.

Novas tecnologias e direitos sociais. Pluralismo ideológico e diversidade cultural. Ética e cidadania. Quiçá consigamos criar, como utopia ou cenário contraponto, uma realidade próxima ou similar ao que sonha a poetisa Roseana Kligerman Murray:

"No ano 3000
os homens já vão ter
se cansado das máquinas
e as casas serão novamente românticas.

O tempo vai ser usado sem pressa:
gerânios enfeitarão as janelas,
amigos escreverão longas cartas.

Cientistas inventarão novamente
o bonde, a charrete.
Pianos de cauda encherão as tardes de música
e a Terra flutuará no céu
muito mais leve, muito mais leve".


Notas Bibliográficas.

CASTELLS, Manuel. O Fim do Milênio. SP. Paz e Terra, 1999.

GATES, Bill. A Estrada do Futuro. SP, Ed. Companhia das Letras, 1995.

GENTILI, Pablo (org.): Pedagogia da Exclusão. Petrópolis, Ed. Vozes, 1995.

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. RJ, Ed. Civilização Brasileira, 8a. Ed., 1991, p. 124-125.

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX. SP, Ed. Companhia das Letras, 1995.

LÈVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. RJ., Ed. 34.

MATTELART, Armand. Uma comunicação desigual. O Correio da UNESCO: A explosão da multimídia: Quo Vadis? RJ, Fundação Getúlio Vargas, abril de 1995, ano 23, n.º 04.

MORAES, Raquel de Almeida. A Política de Informática na Educação Brasileira. Do Nacionalismo ao Neoliberalismo. Campinas, Unicamp, Faculdade de Educação, Tese de Doutorado, 1996.

KLIGERMAN, Murray R. Contracapa da Revista Ciência das Crianças, Brasil, SPBC, mar/ abr. de 1995.

SCHAFF, Adam. Sociedade Informática., SP, Ed. Brasiliense & UNESP, 4a. Ed. 1992.