O Elefante Cibernético
Wagner Gutterres
SENAC/RJ
waggut@web4u.com.br
Ah, as lendas !... Com mensagens edificantes nos contam coisas que, se não aconteceram, deveriam ter sido reais tal a gama de ensinamentos que proporcionam.
Assim é a história do elefante que parado a pedido de três cegos, foi por eles examinado. Como cada um só pode, devido à sua deficiência, examinar uma parte do animal, ficaram a discutir após sua passagem se o elefante era "comprido e fino como uma cobra", "liso e largo como um muro" ou "roliço e liso como uma coluna".
Hoje passeia pelos caminhos do mundo um outro tipo de "animal" desconhecido: o "elefante cibernético".
Habitante de uma selva virtual, esse espécime é acessado através dos microcomputadores e sua forma, composição e utilidade é discutida on-line por todos que pensam haver descoberto um espécime novo, algo assim como uma nova América, diante de boquiabertos aborígenes não informatizados que, por desconhecer essa nova midia, ficam deslumbrados diante da verborréia pseudo-tecnológica desses profetas modernos, arautos de um paraíso "internético".
É com certo incômodo que ouvimos de pessoas ditas entendidas no assunto. conceitos e opiniões que constituem, não raro, textos incoerentes do ponto de vista técnico.
Em geral começam confundindo bits com bytes. Em seguida perguntam, candidamente, se não é conveniente aumentar a memória do micro já que tem aparecido a mensagem "disco cheio", e daí em diante segue-se um diálogo digno de um texto de Eugène Ionesco, o famoso criador do Teatro do Absurdo.
Nós, que somos responsáveis pela formação profissional dos nossos alunos, devemos esclarecê-los sobre esse tipo de conhecimento superficial e de sua inconveniência, principalmente nas suas atividades profissionais. Os conceitos básicos de informática são absolutamente necessários para o uso conseqüente do computador. A leitura de jornais e revistas especializadas deve ser feita sim, mas com espírito crítico pois, mesmo nesses, encontramos às vezes conceitos pessoais que não representam a unanimidade do pensamento daqueles que militam no setor.
O conhecimento é um bem perene, não devemos recusá-lo nem escusarmo-nos de transmiti-lo baseados em premissas do tipo "é muita teoria" ou "isso não é necessário", emitida por curiosos, investidos de ares de especialistas, mas que não passam de pessoas que, como os cegos da história hindu, têm uma visão parcial, incompleta, do problema.
Não deixe, caro docente, que seu aluno veja o computador como um monstruoso elefante cibernético e que saia por aí dizendo baboseiras informáticas como se fosse a quintessência do saber técnico ! Você é responsável, nós todos somos responsáveis. Para tal devemos estar sempre atualizados, nem que seja para não nos tornarmos meros repetidores de termos em inglês, que nada representam se não soubermos seu significado real no contexto da nossa área.